ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 083: Patrimônios culturais e meio ambiente: pensando a proteção de modos de vida e territórios de povos e comunidades tradicionais
Status das mulheres e a produção de pano marcado do povo Mandjaku, Guiné-Bissau: temas emergentes a partir do ingresso de jovens guineenses nas universidades
Ericânia Almeida Gomes (UNILAB), Natalia Cabanillas (UNILAB)
O pano marcado é o um artefato cultural da Guiné-Bissau, usados nas grandes festividades e rituais de passagem da etnia Mandjaku. Estes panos são produzidos exclusivamente por mulheres, através de marcas (bordados) sobre um pano de pinti, cujas cores e formas transmitem mensagens relativos ao contexto do ritual no qual serão utilizados. Atualmente na Guiné-Bissau, o pano marcado tornou-se fenômeno no país por fortes aderença das outras etnias e inclusive a sua inclusão nas cerimônias do Estado. A partir do acceso de jovens estudantes guineenses no âmbito académico, já existem trabalhos acadêmicos sobre os panos de pinti, objeto produzido prioritariamente por homens e muito popularizado; porém, os panos marcados -apesar de serem mais importantes- ainda não tem sido objeto de pesquisa. Este trabalho estuda os significados e usos rituais do pano marcado, e como, através da sua produção, as mulheres Mandjaku constroem um status social de reconhecimento, uma fonte de renda e uma associação com as atividades espirituais da comunidade Mandjaku. Foram realizadas até agora três entrevistas em profundidades em 2022 e quatro em 2024 através de redes sociais e de forma presencial na cidade de Fortaleza, com mulheres mandjaku originárias de Caio, que moram em Guiné-Bissau ou na diáspora no Brasil. As entrevistas foram conduzidas nas línguas crioulo e mandjaku, dependendo da preferência da entrevistada. Entre os resultados preliminares podemos afirmar que a produção de pano marcado visibiliza e reforça o papel das mulheres Mandjaku nas comunidades, desde que estes artefatos são indispensáveis nos diversos rituais, desde casamento até investidura do regulo. Este tipo de pano não é encontrado no mercado, e é comercializado apenas entre a produtora e quem solicita o trabalho, usualmente uma pessoa da família ou da vizinhança da produtora. Também podemos afirmar que possui um papel económico na vida das mulheres que marcam o pano, pois elas o reconhecem como um ingresso complementar de relevância e que lhes permite enfrentar pagamentos de taxas de educação, entre outras coisas. Embora na bibliografia académica sobre os povos mandjaku e sobre Guiné Bissau há um consenso em considerar os povos mandjaku como patriarcais, este trabalho discute a ideia de que são povos unívoca ou absolutamente patriarcais. Assim, esta pesquisa discute as formas nas quais as mulheres mandjaku constroem status e são reconhecidas através de atividades tradicionais, dos seus vínculos e participação na construção da religiosidade das comunidades às quais pertencem. O pano marcado simboliza ancestralidade e resistência de um povo que tem a oralidade como base dos seus ensinamentos e que os mantém vivos também através de linhas femininas de transmissão para gerações futuras.