ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 051: Envelhecimentos, Interseccionalidade e Cuidados
Mulheres velhas e protagonistas nos rituais: relações de poder das capitoas nas marujadas da região amazônica
Hildeana Nogueira Dias Souza (UFPA)
A Marujada é um dos rituais formado por um conjunto de danças, apresentadas durante as festas de São Benedito ou São Sebastião na Amazônia paraense. A marujada mais antiga é a que acontece em Bragança, no nordeste paraense, e teve início em 1798, completando neste ano 226 anos de existência. Iniciou-se quando os senhores brancos, atendendo ao pedido de seus escravizados, permitiram a organização de uma Irmandade e a primeira festa em louvor a São Benedito. As Marujadas são constituídas em sua maioria por mulheres, cabendo-lhes a direção e a organização. A organização e a disciplina em relação as marujas e marujos são exercidas por uma "Capitoa". Dentre essas protagonistas, destaco neste trabalho, as Capitoas das marujadas que são realizadas no Pará, representação máxima de um ritual. É a Capitoa quem escolhe a sua substituta, nomeando a "vice-capitoa", que somente assumirá o bastão de direção em caso de morte ou renúncia daquela. A Capitoa, geralmente uma das mulheres mais velhas do grupo, carrega na mão um bastão ou ramo com flores que remete o símbolo da sua autoridade. As apresentações das marujadas, geralmente acontecem no período de 25 de dezembro ao dia 21 de janeiro do ano seguinte. Além da cidade de Bragança no Pará, a manifestação se ramificou em outros municípios vizinhos. Essa pesquisa em relação à abordagem é qualitativa, com relação aos objetivos apresenta-se como descritiva/explicativa e o principal método utilizado nesse trabalho é a coleta de dados baseada nas técnicas conhecidas como Procedimentos de Investigação Etnográfica. A pesquisa tem como sujeitas interlocutoras, 13 mulheres, com a função de capitoa, nas irmandades e ou associações das festas de São Benedito e São Sebastião na Amazônia paraense. Admite-se e reconhece-se que a mulher foi objeto de injustiça e privações no decorrer da história e continua sendo ao ser valorizada apenas por seus atributos físicos e, logo, essas se reportam à Capitoa (uma mulher velha) como referência do feminino na festa, para além disso, todos/as reverenciam e reconhecem a Capitoa como comandante deste ritual. O objetivo deste estudo é revelar o lugar e a presença das Capitoas nas festas religiosas, por uma perspectiva agentiva, na qual as mulheres velhas, negras, pobres e em condições de analfabetismo, são vistas como protagonistas sociais em um certo período do ano. Acredita-se que a presença de mulheres velhas, nas festas religiosas, pode ser vista como protagonismo feminino social. As festas religiosas são um tema presente na antropologia desde longo período e as questões da ordem cultural que envolve religião, festa e ritual, têm sido registradas na disciplina por meio da etnografia, e se constituem como importante no seu arcabouço teórico.