ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 060: Experimentos de Ontologia: formas de mundialização desiguais e etnografia como atuar criativo.
O menino ribeirinho antropólogo e o Opará: modos criativos de narrar e descrever transformações paisagísticas, humanas e mais que humanas nas águas e margens do São Francisco em mundos fraturados.
Igor Luiz Rodrigues da Silva (FASVIPA)
Opará rio mar, é o nome originário dado pelos povos Tupis-Guarany que habitavam as margens e as águas do rio que comumente e desde 1501 se convencionou chamar de rio São Francisco. O maior rio em extensão totalmente brasileiro surge no território de Minas Gerais e percorre vastos biomas e paisagens até desaguar no Oceano, entre de Alagoas e Sergipe. Ao longo de mais de 2 bilhões de anos, o velho rio rasgou as entranhas do mundo, transformou paisagens, viu seu poder moldar vidas, relações. Os ventos, as erosões, secas e cheias, sedimentos, espécies variadas, seres mais que humanos, povos originários, faziam e fazem parte de sua constituição, de suas modelagens lenticas, sem grandes rupturas e aprisionamentos. Porém, nos últimos 500 anos, ele se viu estancado, preso por construções imensas de barragens, canais de concreto, pedra e ferro, fruto processos coloniais, industriais, da transformação de suas águas em objeto de apropriação pelo capital. Ao passo que essas catástrofes humanas, de tomadas de territórios originários iam sendo ocupados pela domesticação de paisagens, corpos humanos e mais que humanos, resistências e contradomesticações ajudaram a construir novos sentidos e significados das comunidades ribeirinhas ao longo do rio. Neste sentido, este trabalho, inspirado na tese de doutorado defendida em 2022, cujo título é: Há um rio que vive e navega em meus sonhos, um Preto Velho me contou: memórias, paisagens e práticas do São Francisco, nas ruinas do Antropoceno, tem o objetivo de narrar, a partir de minhas próprias experiênciações, memórias, práticas e relação com o rio, o que venho chamando de antropologia ribeirinha, imersa nos movimentos das marolas, das vazões e correntezas de um rio múltiplo e habitado por relações multiespecies, bem como de memórias fluidas, simbióticas produzidas no seio das minhas famílias de barqueiros, canoeiros, pescadores, tornando a relação ribeirinho e antropólogo, sem divisões, sem hierarquizações, sem conflitos científicos e metodológicos. Para além da produção de conhecimento moldado com base em conceitos ocidentais e canônicos, estabeleço como método e metodologia, o encontro com sonhos, com habilidades e técnicas entrelaçadas no meu corpo, na minha escrita vinculada ao mergulho, nado, pesca, canoagem, desde a minha infância até os dias atuais. Bem como os encontros, diálogos, aconselhamentos com modos particulares de se relacionar com as entidades, seres, orixás, cânticos, ritos e incorporações, como sendo um iniciado na Umbanda, para assim para que a vida do rio, não seja ela mesma, pensada e apropriada continuamente pelas visões de mundo coloniais e para que a antropologia não seja parte desse processo brutal de domesticação dos mundos e conhecimentos.