ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 005: Antropoceno, Colonialismo e Agriculturas: resistências indígenas, quilombolas e camponesas diante das mutações climáticas
Contracolonização e resistências Mbyá-Guarani diante do Antropoceno
Simone Alves de Almeida (UFRGS), Josiane Carine Wedig (UTFPR)
Os Mbyá-Guarani estão na linha de frente contra as mudanças climáticas, junto a outros povos indígenas, comunidades quilombolas e camponesas. Tendo um modo próprio de conceber a terra e os outros seres que a compõem, eles vêm atualizando suas estratégias para enfrentar a destruição de seus territórios ancestrais e do planeta. De que modo a resistência Mbyá-Guarani tem interpelado a marcha de destruição do Antropoceno? Essa pesquisa ocorreu com comunidades Mbyá-Guarani que vivem junto da floresta, na Mata Atlântica do RS. Ao acompanhar o guatá (caminhar) Mbyá, nos perguntamos: que modos de relação com a terra e com os outros seres há em seu mundo? Como eles favorecem a habitabilidade das paisagens que compõem seu guatá tape porã? Em que esses modos de se relacionar com a terra se diferem do juruá-reko - o Habitar Colonial do Antropoceno? (Ferdinand, 2022). Quatro categorias de análise emergem da experiência de acompanhar o guatá a partir destas aldeias. A primeira delas é “A Retomada da Terra” como experiência na qual os Mbyá-Guarani executam uma estratégia política de proteção de determinados territórios, não só requerendo para si o direito territorial, mas impedindo sua destruição. “A Paisagem Mbyá” é uma segunda categoria, na qual procuramos mostrar como se constituem essas paisagens (Tsing, 2019) e como elas se diferem das paisagens ocupadas pelos juruá. A terceira categoria é o que chamamos “Presenças Multiespécies”, e onde abordamos como a cotidianidade Mbyá é habitada por muitos seres, construída com eles, que são reconhecidos em importância, lugar e espírito. A quarta categoria é o “Guatá Tape Porã”, onde abordamos o guatá como elemento fundamental do modo de vida Mbyá e que permite perceber um jeito de caminhar na terra com efeitos muito distintos daqueles vinculados ao Antropoceno. A pesquisa mostra que aquilo que o juruá chama de preguiça, dizendo que “índio não sabe trabalhar”, “que é um atraso para o desenvolvimento da nação”, é o modo de vida desse povo e uma atitude ativa e deliberada de viver sem destruir aquilo que possibilita a própria vida. Atitude esta que é baseada na compreensão de que essas condições dependem de relacionalidades entre distintos seres. A pesquisa traz a perspectiva dos Mbyá-Guarani sobre a terra, as mudanças climáticas, e aborda aquilo que eles apontam sobre o juruá-reko, como o responsável pela destruição das condições de habitabilidade do planeta. O modo contracolonial (Santos, 2023) de habitar e caminhar dos Mbyá-Guarani apresenta inúmeros modos de resistência (Santos, 2023) ao Habitar Colonial do Antropoceno (Ferdinand, 2022).