ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 042: Desafios dos estudos ciganos no campo da Antropologia: questões de método e novas demandas políticas
“Calonidade líquida”: dinâmicas interculturais e a autopreservação étnica dos Calon brasileiros
Mario Igor Shimura (UNICESUMAR)
A linguagem metafórica utilizada por Zygmund Bauman (1999), tomando a propriedade “liquida” como categoria analítica das relações sociais, econômicas e de produção a partir do fim da Segunda Guerra Mundial – momento até o qual prevaleceu, segundo diz, uma “modernidade sólida”, nos serve como perspectiva para analisarmos as relações dos Calon itinerantes com a sociedade ampla no contexto brasileiro. O conceito desenvolvido por Bauman apresenta a ideia de que a “liquidez” das relações não se dá “para acabar de um vez por todas com os sólidos”, mas para “limpar a área para novos e aperfeiçoados sólidos”. A binaridade “sólido-líquido”. aplicada na análise aqui proposta, não se detém ao elemento temporal – ainda que esteja implicado, mas abrange o processo transcultural, nos moldes do que nos apresenta Fernando Ortiz (1944), teórico da transculturación. A imagem dinâmica da “liquidez” que “derrete sólidos” para gerar “novos e aperfeiçoados sólidos” nos remete a um ciclo contínuo de transformações dos modos de vida tradicionais (“sólidos”), que são constantemente reformatados, reorganizados e “enriquecidos” pelos Calon diante da influência das aceleradas transformações (“líquido”) da chamada “modernidade” (GIDDENS, 1990; HALL, 2011). Dito isso, a dinâmica de coexistência entre o “tradicional-sólido” (nas comunidades étnicas) e o “moderno-líquido” (das grandes cidades e ambientes não ciganos) impõe à comunidade tradicional a necessidade de maleabilidade relacional em termos interculturais, e que invariavelmente se reflete no seu ethos, constituindo novas perspectivas étnico-identitárias. Os efeitos dessa dinâmica se traduz na ideia de uma “calonidade estrategicamente líquida” que constantemente “derrete sólidos” (tradições estáveis) e os recria com elementos externos embutidos e contextualizados (“calonizados”) aos seus modos de vida, aperfeiçoando suas relações e estabilidade com/perante a sociedade não cigana. É um processo que implica em somas e subtrações de elementos socioculturais, externos e internos respectivamente, que resultam em novos modelos, códigos e sinais diacríticos. O presente trabalho problematiza o “ser Calon”, ou a “calonidade”, presente no mosaico pluriétnico brasileiro, demonstrando sua adaptabilidade e habilidade intercambial diante/para com a sociedade ampla. Em termos práticos, esses fenômenos podem ser observados e analisados a partir do campo etnográfico, na presença dos Calon nas redes sociais, no seu uso de aplicativos e de outras tecnologias digitais, no consumo de produtos de estética, mídia e vestimenta, na utilização de bancos online etc., modelos e ambientes estes que lhes impõem modelos relacionais, comunicacionais e culturais que resultam no que chamo aqui de “calonidade liquida”.
Palavras-chave: calonidade, liquido, hibridação