Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 027: Antropologias da Paisagem: Conhecimentos, Relações e Políticas Multiespécie
Criação de paisagens e memórias multiespécies no semiárido pernambucano
Renan Martins Pereira (Universidade de São Paulo)
No sertão, ‘criação’ é o nome que se dá ao rebanho de bodes e cabras. Mas onde ‘se criam’ os bichos, também ‘se criam’ as plantas, as terras, as águas e as gentes. E por que não as paisagens e as memórias? As transformações no ecossistema da Caatinga e os efeitos da crise ecológica são debatidos de diferentes maneiras pelos sertanejos com quem faço pesquisa de campo em Floresta, município do semiárido pernambucano. Secas cada vez mais duradouras e severas; chuvas menos regulares e distribuídas; desertificação; espécies invasoras de plantas; desmatamento para produzir lenha, madeira e estradas; urbanização; construção de obras de impacto, como barragens e hidrelétricas; cercamentos de campos de uso comum; poluição, transposição e vazão de rios e riachos. Estas e outras formas de ação antrópica, ao mesmo tempo que contribuem para a transformação da mata nativa, criam paisagens e memórias multiespécies, com as quais criadores, vaqueiros, agricultores, pecuaristas e fazendeiros narram, imaginam, significam e preservam o universo ao seu redor. Dessa maneira, o regime ecológico na Caatinga será analisado nesta apresentação a partir de discursos, imagens, memórias e histórias sobre formas particulares de viver, habitar, perceber e criar a vida nesse bioma. Falar de árvores como umbuzeiros, quixabeiras, aroeiras, caraibeiras, por exemplo, é falar de paisagens, lugares e lembranças de pessoas, famílias e acontecimentos históricos. Falar de chuvas, minas, lagoas, rios e riachos é falar de cheias, secas e das águas quando ‘sangram’ e levam ‘fartura’ para as casas sertanejas. Falar de açudes, cacimbas, barreiros e poços - assim como das ‘criações’ (caprinos), do ‘gado’ (bovino), do ‘animal’ (equinos, asininos e muares) e da ‘caça’ (preás, mocós, tatus, pebas, emas, seriemas etc.) -, é falar de paisagens centenárias de fazendas e ribeiras, com suas tecnologias e infraestruturas, com seus viventes e criaturas, que povoam as lembranças de infância e juventude, as histórias, os valores e os costumes do ‘povo antigo’. Mas como as memórias e paisagens sertanejas se tornam criações umas das outras? E quais os limites desse processo de criação à medida que as coisas e a vida se transformam radicalmente na Caatinga? Estas e outras perguntas têm o objetivo de tensionar relações estabelecidas pelo pensamento antropológico entre o passado e o presente, o tradicional e o contemporâneo, a duração e a mudança, o mito e a história, o natural e o artificial. Tais relações serão analisadas à luz da antropologia, sobretudo, em sua interlocução com os estudos multiespécies, a literatura, a ecologia e a geografia, a fim de pensar também nos rendimentos analíticos de conceitos como os de “lugar”, “habitat”, “ambiente” e “território” vigentes nesses diferentes campos de conhecimento.