Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 070: Memórias sensíveis, contramemórias e patrimônios incômodos: políticas, suportes e narrativas nas cidades
Patrimônios de afetos visuais: Montagens da memória em acervos fotográficos pessoais
Cristina Maria Da Silva (UFCE)
Este trabalho é um mergulho na fisionomia, nas narrativas e experiências de vida de mulheres, de
diferentes origens, por meio de suas fotografias e de seus traços visuais no tempo, em um projeto de
extensão. A pesquisa e o ensino são movimentados pelo que a extensão aponta e estimula, não o contrário. Por
meio de visitas às suas casas, vasculhando acervos familiares, escutando as músicas que embalaram a
juventude dessas senhoras, tocando seus guardados, que culminaram em uma experiência expositiva, encontramos
vestígios do que elas contam sobre si e do que acionam como um legado. Tomando a Antropologia Visual como
referência, observamos a imagem como sintoma e como conhecimento (Didi-Huberman), acionamos os seus
dispositivos e arquivos vivos, como atos (Samain) potencializadores na captura dos vestígios da memória,
sobretudo das ausências, lacunas e rasuras do vivido. Seus nomes são como bússolas que nos orientam e
cartografam os seus percursos e protagonismos coletivos: Tereza, Tonha, Iolanda, Ivoneide, Zenir, Acilda e
Helena. Suas existências a partir das imagens, dos diferentes lugares de onde vieram no Ceará, dos lugares
por onde passaram e o que delas restou, são tomadas como questões, mas também como feridas (Barthes) que nos
instigam a ver, além do que costumamos olhar. Observando seus espaços da recordação (Assmann) por meio da
rememoração (Gagnebin), podemos ampliar as possibilidades narrativas de suas singularidades. Desse modo,
diante dos movimentos das imagens articulamos fotografias com biografias e memórias e as observamos como
extensão de nossos corpos e como registro que nos permitem inventariar nossas origens tanto individual
quanto coletiva. Tomando os acervos pessoais como arquivos, desvelamos o que é contingente e arbitrário. Ao
guardar histórias, descobrimos como de maneira singular, as memórias são acervadas e como elas podem
restituir pelo afeto, bem como elas expressam o lugar de onde sofre, o lugar de onde se expressam os
sintomas, conforme Didi-Huberman. Acompanhando os passos, rastros, cantos e visualidades dessas mulheres,
podemos evocar suas memórias e sermos testemunhas dos signos (ou túmulos) de suas fabulações e geografia. Ao
escutarmos as intimidades de seus cenários familiares redimensionamos as experiências urbanas, ampliamos as
possibilidades cognitivas de como lemos as cidades e as biografias que as compõem. Se colonizar é um
exercício de desmemorização, aqui as imagens nos possibilitam rememorar e com isso vasculhar nas lacunas dos
arquivos e nos cortes da memória: as histórias e narrativas subterrâneas que atravessam pessoas, lugares e
seus acontecimentos. Os ossos dos mortos regurgitam da terra vozes que, muitas vezes, não queremos ou não
estamos prontos para escutar.