Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 011: Antropologia da técnica
Entre veias e fios: as relações entre humanos e máquinas numa clínica de hemodiálise
Pedro Rabello Brasil Corrêa (UNIFESP)
O presente trabalho aborda a técnica, a saúde e doença, o sofrimento, enfim, o corpo e a vida. Trata-se de uma etnografia desenvolvida numa clínica de hemodiálise de um hospital público da cidade de São Paulo/SP, cujo objetivo foi investigar as relações entre humanos e máquinas ao longo de um processo terapêutico onde a técnica é elemento fundamental. A bem dizer, não existe hemodiálise sem a máquina de diálise: longe de ser mero incremento, ela é um instrumento que permite o exercício da medicina, por um lado, e a restituição da saúde e bem-estar dos portadores de doença renal crônica, de outro. Ou seja, a técnica na hemodiálise é tanto um regulador da atividade e do ambiente de trabalho dos profissionais da saúde, quanto uma garantia de eficácia do tratamento. Evidentemente, não há “cura” para a doença renal crônica, sendo ela uma marca indelével na vida dos enfermos. Mas, se conectados à máquina, estes passam a experimentar uma terapêutica que, apesar de rígida e exaustiva, atenua os sofrimentos e expande os limites dos corpos, devolvendo-lhes uma maior autonomia, qualidade de vida etc. Nesse sentido, o objeto técnico integra um jogo entre vida e morte, saúde e doença, gozo e dor, liberdade e privação; a clínica encerra um conjunto de relações sociotécnicas que reconfigura a própria vitalidade dos vivos, possibilitando-os instaurar novas normas de existência, as quais são enormemente tributárias dos não-humanos. Contudo, essas relações entre humanos e não-humanos não são “harmônicas” ou “equivalentes”. Embora possamos nos referir à máquina de diálise enquanto “objeto” técnico, ela pode vir a ser, por vezes, um sujeito e/ou agente. A depender da formação e autoridade do profissional, as manipulações e expectativas acerca da máquina são diferentes: médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem podem encará-la como algo “estranho”, “surpreendente”, “previsível”, “perfeito” etc.; as habilidades que possuem, a posição que ocupam na hierarquia da clínica, influem nas correspondências com a máquina, que adquire qualidades e significados distintos conforme os usos e desusos que se faz dela. Os pacientes, por sua vez, detêm um conhecimento tácito sobre a técnica, construído durante os anos de tratamento. Intuitivamente, eles sabem como a máquina funciona, sabem dos ganhos, perdas e dificuldades da hemodiálise, se familiarizando com a tecnologia através de experiências vivenciadas com o corpo e no corpo. Abrindo mão de quaisquer abordagens essencialistas e apriorísticas sobre as relações entre humanos e não-humanos, este trabalho pretende, portanto, tratar a técnica (no caso, terapêutica) de modo processual, relacional e multilateral, num esforço de pensá-la não como um recurso “artificial” ou “antinatural”, e sim como uma potência imanente à vida.