ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 020: Antropologia e Alimentação: interculturalidade, saberes críticos e desafios contemporâneos em contextos de luta por direitos
Como estamos cuidando das pessoas com obesidade? O hiato da interseccionalidade e interprofissionalidade no cuidado em saúde
Danielle Cabrini (UFES), Lorrany Santos Rodrigues (CASSI), Sara da Silva Meneses (ISCON)
A obesidade afeta de forma distinta as pessoas segundo o gênero/sexo, raça/cor, classe social e diversos outros marcadores sociais, mediados pelas suas diversas formas de opressão, especialmente quando tais marcadores atravessam de forma interseccional indivíduos e coletividades em sociedades marcadas por intensas desigualdades e iniquidades sociais, como o Brasil. É fundamental destacar que a narrativa dominante das causas da obesidade, é centrada no resultado do binômio: alimentação não saudável e ausência de exercício físico, o que é conhecido como balanço energético positivo. Mas um olhar crítico-reflexivo sobre tal narrativa dominante é primordial, não com objetivo de desqualificar a importância do balanço energético, e sim de ampliar a compreensão da obesidade como um problema social multidimensional e potencializado pela desigualdade social e iniquidades em saúde. Tal ampliação pode ganhar contornos e compreensões ampliadas quando observado a partir da teoria crítica da interseccionalidade. Toda essa complexidade é convidativa e se traduz como um imperativo ético utilizar a interseccionalidade como lente de observação e análise crítica, considerando a necessidade de compreender a obesidade a partir de uma abordagem interseccional, que considera que as múltiplas formas de opressão e as relações de poder exercem influência nas relações sociais que tornam as pessoas que experimentam tais opressões mais vulnerabilizadas para o surgimento e/ou agravamento da obesidade. Tendo como base as questões já trazidas sobre a complexidade da obesidade, é necessário compreender as possíveis lacunas de um cuidado uniprofissional e até multiprofissional. Será utilizado o seguinte questionamento para auxiliar na construção de uma expansão dos cuidados em saúde destinados às pessoas com obesidade: A oferta de um cuidado multiprofissional para uma condição de saúde complexa como a obesidade é suficiente? Avançar de um cuidado multiprofissional para um cuidado interprofissional é necessário considerando as lacunas que a primeira apresenta na garantia da integralidade do cuidado, em um contexto de problemas de saúde cada vez mais complexos, que requerem ações ainda mais sinérgicas e assertivas, e não apenas realizadas em blocos separados de categorias profissionais distintas. A existência de uma compreensão ampliada do surgimento da obesidade, das iniquidades em saúde, que tornam grupos populacionais mais vulnerabilizados, e da urgência de um cuidado integral, equitativo e equânime no SUS que contemple todas as pessoas com obesidade, discutir a multidimensionalidade da obesidade sob todos esses aspectos é um exercício crítico-reflexivo que supera o hiato entre a interseccionalidade e interprofissionalidade.