ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 044: Dialéticas da plantations e da contraplantation: expropriação, recusa e fuga
Considerações sobre a chegada do mercado de carbono no território do Povo Parakanã, na Terra Indígena Apyterewa
Clara Roman Pinto da Fonseca (USP)
Minha pesquisa propõe uma análise do conflito ontológico ensejado pela chegada das empresas que atuam no mercado de carbono voluntário na região de Altamira, em especial na Terra Indígena Apyterewa, território do povo Parakanã. No estágio atual, tenho me apoiado nas nas etnografias existentes sobre este povo e nas referências teóricas que analisam criticamente as estruturas do capitalismo tardio. Na COP de 2021, resoluções sobre o REDD+ (créditos de carbono gerados por desmatamento evitado) aqueceram este mercado. Nesse contexto, traders do carbono passaram a buscar lideranças e associações de povos e comunidades tradicionais na tentativa de fechar contratos em territórios onde a floresta está preservada. Desse movimento, surgiram "iniciativas promissoras, mas também um surto de contratos abusivos e desprovidos de projetos, num contexto de baixíssima informação qualificada sobre o tema e com enormes lacunas de regulamentação oficial (VILLAS-BÔAS, ROJAS, JUNQUEIRA. 2023:10). Essa aproximação aconteceu também com o povo Parakanã. Por muito tempo, os Parakanã-Apyterewa, segundo Fausto, adotaram uma trajetória seminômade, em longas jornadas pela floresta os trekkings (Fausto, 2001). Jornadas que não se relacionavam com a impossibilidade de fixar-se, mas com a possibilidade de se mover. Para este povo, a floresta é sinônimo de provimento seletivo de vida. Fausto também aponta os Parakanã Ocidentais da Terra Indígena Apyterewa desenvolveram uma trajetória centrífuga, com estruturas políticas mais descentralizadas e a abertura ao exterior. Nesse sentido, ele fala da predação familiarizante, que relaciona-se, na guerra, ao ato de conter o inimigo em si. Em sentido oposto, o mercado de carbono é um empreendimento repleto de escalabilidade, no conceito de Anna Tsing: a capacidade de um projeto de alterar escalas suavemente, sem qualquer mudança em sua abordagem. É, portanto, um esforço em mensurar e precificar a floresta como uma composição de carbono, de uma forma que tal medida se torne universal e escalável. A pergunta que me move, portanto é como tal empreendimento caberá em um local e em um modo de vida que tem a floresta como um território de experiências e de diversidade? Para responder a essa pergunta, busco bibliografias que discutam a ideia de conflito ontológico (Blaser, 2009, Almeida, 2013, Cadena 2018). Qual será a trajetória do encontro desses duas formas de fazer mundos? Citando Blaser, "às vezes, elas podem coexistir - possibilitando-se mutuamente, ou sem se darem conta uns dos outors - mas, em outras ocasiões, elas se interrompem mutuamente".