Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 027: Antropologias da Paisagem: Conhecimentos, Relações e Políticas Multiespécie
João Guabiraba: relações com espíritos na paisagem beiradeira do médio e alto Tapajós
Carlos Roberto Calenti Trindade (UFAM)
À margem direita do médio Tapajós, o pequeno porto leva a uma casa antiga e dali a uma trilha levemente inclinada, por onde chegamos à capela, pintada de azul contra o verde da mata ao redor. Na penumbra do seu interior, iluminados pelas chamas que brotam das latas de óleo diesel e das velas, pedaços de corpos talhados em madeira se espalham pelo chão e se escoram pelas paredes. Em um lugar privilegiado, de frente à porta de entrada, está uma estátua, a imagem do João Guabiraba, o santo a quem essa capela é dedicada, para quem são feitas todas as promessas materializadas nos objetos daquele lugar e ainda tantas outras no curso do rio. É na relação dos beiradeiros do médio e alto Tapajós com esse santo, que vou me concentrar nessa comunicação, pensando em como essa relação anima e constitui a paisagem intensamente disputada da região e é mobilizada nas lutas políticas de defesa dos territórios.
Eu ouvi sobre o João Guabiraba pela primeira vez ao conversar com seu Luiz de Matos, liderança da comunidade ribeirinha de Pimental. Ele me contou que seu pai, Ernesto, havia feito uma promessa ao “espírito milagroso” para que a construção da hidrelétrica que inundaria a vila não fosse à frente – pedido atendido e promessa paga. Segundo a história que seu Luiz contou, e que descobri ser uma entre várias, o Guabiraba foi um serigueiro da época da escravidão por dívidas. Ele ficou doente enquanto trabalhava e o patrão ordenou que seu melhor amigo o levasse até o alto de um morro e o abandonasse lá, sem qualquer assistência. Quando, muitos dias depois, o patrão permitiu que o amigo voltasse ao lugar, ele encontrou apenas os ossos do Guabiraba. Em um momento de aperto, quando o seringueiro tinha se acidentado numa caçada, a sua esposa sugeriu que ele fizesse uma promessa ao amigo morto. Assim, tendo sido curado na mesma noite, a fama do João Guabiraba se espalhou pelos beiradões do médio e alto Tapajós, onde vive até hoje.
Para mim, a história desse santo emaranha temporalidades, espacialidades e socialidades na paisagem, sua própria existência um emaranhado de histórias que não se fecham numa só narrativa ou em uma entidade dada, mas que se produz e produz relações com outros continuamente. Essas relações são muitas vezes ignoradas nos cálculos que desertificam territórios (especulativa ou concretamente) para a maximização de recursos. Mas os espíritos, entre eles o João Guabiraba, são parte inextricável das disputas que se travam ali, como no caso das hidrelétricas. E, mais importante, eles mediam e produzem relações com o território. Nesse sentido, a capela, cravada em meio a uma complexa justaposição de mapas, entre parques, reservas, terras indígenas etc., é um nó de materiação dessas relações que constituem a paisagem beiradeira do médio e alto Tapajós.