Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 081: Os limiares do corpo: a circulação de substâncias corporais e a produção de pessoas e relações
Testosterona por um olhar transviado
Tui Xavier Isnard (UNICAMP)
O presente artigo pretende produzir uma conversa com a testosterona atenta às suas características
ambíguas. Um dos modos de perceber a agência da testosterona é o processo de aromatase, no qual, uma alta
taxa de testosterona (+800ng/dl) converte-se parcialmente em estrogênio. Essa capacidade de mutação da
testosterona em estrogênio aponta para uma instabilidade da substância, que, indefinida em si, pode
tornar-se seu outro. Descubro o gesto da aromatase em decorrência de uma pesquisa de campo com/na
transmasculinidade, que envolve análises conjuntas (entre pacientes trans e o clínico geral da UBS) de
exames de sangue. Portanto, nesta análise a testosterona se faz ver através da relação que estabelece com a
materialização de corporalidades transmasculinas. A história da descoberta dos hormônios sexuais indica a
implicação entre os imaginários sobre gênero e o regime da diferença sexual atuantes no contexto das
pesquisas. Na descrição dos experimentos, e do próprio hormônio, foi produzida a virilização da
testosterona, assim como o corpo humano foi atravessado por uma substancialização total, tornando o corpo
sexuado efeito dos índices hormonais. Portanto, este artigo pretende, seguindo a proposta de Roy (2018),
re-habilitar o conceito de sexo dentro dos estudos feministas. Sugiro um olhar transviado sobre a
testosterona, referenciado na processualidade da materialização de corpos transmasculinos e com o propósito
de repensar o conceito de sexo enquanto natureza em ação. As noções de intra-ação (Barad, 2021) e
naturocultural (Haraway, 2019) são ferramentas de tensionamento para pensar-com os hormônios como produtores
de sexo/natureza.
© 2024 Anais da 34ª Reunião Brasileira de Antropologia - 34RBA
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