Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 056: Etnografias do catolicismo: práticas, rituais, experiências e trajetórias em perspectiva
“Todo congadeiro é católico, mas nem todo católico é congadeiro”: tensões e disputas nas classificações das práticas devocionais ao Rosário de Maria
Mariana Ramos de Morais (UFRJ)
Diferentemente de modalidades afrorreligiosas como o candomblé e a umbanda, as práticas devocionais ao Rosário de Maria – comumente nomeadas reinados, congados, congadas, dentre outros termos – não têm legitimação social enquanto “religião”. Elas ainda hoje são consideradas como uma expressão do catolicismo – catolicismo negro ou catolicismo popular – e mesmo como cultura popular ou folclore – por vezes, adjetivado “negro” –, sendo considerado um folguedo ou uma dança dramática, evidenciando o seu caráter festivo. O reinado surgiu ainda no Brasil Colônia vinculado às irmandades negras, tendo uma relação próxima com a Igreja Católica, mas se desvencilha – em parte – dessa instituição religiosa no período republicano. Apesar disso, essa relação ficou grafada em sua história e em seus ritos. Entre meus interlocutores, reverbera-se a ideia de que no reinado são realizadas cerimônias em que santos católicos são festejados africanamente, juntamente com os ancestrais, e há a instituição de um império negro. Minas Gerais é um dos estados em que essa prática tem marcada presença e de onde eu componho o repertório que é base para as minhas considerações nesta comunicação. Conforme o levantamento feito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para fins do registro do reinado como patrimônio nacional – ora em curso – existem 1174 grupos de reinado no estado, que realizam 701 festas por ano e estão presentes em 332 dos 853 municípios mineiros. Apesar de a festa ser o momento fundante do reinado, ele não se encerra nela. Durante todo o ano seus praticantes – chamados de congadeiros – se reúnem com diferentes finalidades. No entanto, talvez pelo fato de a festa ser o momento também em que o reinado ganha visibilidade social, ela se destaca embasando a associação dessa prática a uma dada ideia de “cultura” e encobrindo o seu caráter religioso, tão caro aos meus interlocutores que acionam o termo “religião” para expressar aquilo que praticam. A partir de minhas experiências etnográficas junto a congadeiros de Belo Horizonte e cidades do seu entorno, busco pensar sobre as tensões e as disputas que envolvem as classificações e definições sobre o reinado, bem como sobre o que é “ser congadeiro”. Como expresso no título desta comunicação: “Todo congadeiro é católico, mas nem todo católico é congadeiro”. Ouvi essa frase durante uma festa do Rosário. Ela indica um senso de pertencimento a um coletivo, “ser católico”, ao mesmo tempo faz uma distinção dessa identidade plural, “ser congadeiro”. E é a partir dessa frase que conduzo a análise proposta nesta comunicação.