ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 078: O campo biográfico-narrativo e a prática etnográfica: diálogos possíveis
Análise Reconstrutiva de Narrativas Biográficas - Procedimentos Metodológicos de Condução e Análise de Pesquisa com jovens - Esboço para um Diálogo com a Etnografia
Paula Vianna Köche Pacheco (PUCRS)
Vivemos em uma sociedade acelerada, afirma Harmut Rosa em sua obra Aceleração: A transformação das estruturas temporais da modernidade (2019). O otimizar, o acelerar e o inovar, exigidos continuamente pela sociedade contemporânea, nos faz reféns da eterna falta de tempo. A permanente pressão temporal pelo medo constante de perder oportunidades (Rosa, Ibidem: 268) orienta o ritmo da vida, que, por sua vez, precisa ser ajustada para coexistir ao ritmo do mundo cada vez mais célere. Aliada à aceleração, a sociedade contemporânea se caracteriza também pela individualização. Ulrich Beck refere que a individualização significa que a biografia das pessoas se torna independente de determinações pré-fixadas, aberta, disponível e se converte em tarefa a ser desempenhada por cada um (Beck, 2010: 199). No processo de individualização, o sujeito se torna o centro no processo biográfico enquanto os vínculos familiares e diferenças de classe ocupam o plano de fundo (Beck, 2010: 194). Beck afirma ainda que o indivíduo desenha de próprio punho a sua biografia, isto é, a biografia socialmente predeterminada é transformada em biografia feita e a ser feita por cada um. (Beck, 2010: 199). Diante desse cenário, em que o indivíduo é o centro da sociedade contemporânea e a tecnologia é um motor externo que propulsiona a aceleração social, é compreensível a precocidade na busca identitária dentro da sociedade (Santos, 2015: 404).O indivíduo, cada vez mais jovem, procura sua identidade, o seu estilo de vida no grupo social em que está inserido.Em outras palavras, é exigido gradativamente e de forma precoce a singularidade do sujeito que deve ser confirmada no seu cotidiano. Schütz destaca a capacidade de interpretação dos indivíduos na vida cotidiana.Alfred Schütz sustenta a compreensão de que a sociedade é, em boa medida, o que os indivíduos fazem dela, ou seja, o mundo social não é dado, não é natural, nem pré-determinado (Santos, 2017).A pesquisa em tela adota uma combinação de métodos fundamentados no paradigma interpretativo (Keller, 2023): a abordagem reconstrutiva de narrativas biográficas proposta por Fritz Schütze (1983 e 2014) e incrementada por Rosenthal (2014), bem como a discussão em grupo (Bohnsack, 2010). Um dos fundamentos epistemológicos das abordagens interpretativas adotadas aqui é a sociologia de orientação fenomenológica proposta por Alfred Schütz (Schütz, 2018, 2023; Santos, 2018, 2021). Para além da apresentação dessas abordagens em maiores detalhes, considerando sobretudo as singularidades da pesquisa biográfica com jovens tão jovens, o artigo irá considerar as possibilidades de combinação com a etnografia, tendo como ponto de partida para essa discussão a sociologia fenomenologicamente orientada tal como proposta por Alfred Schütz.