Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 070: Memórias sensíveis, contramemórias e patrimônios incômodos: políticas, suportes e narrativas nas cidades
Memória soterrada na cidade maravilhosa: a Praça XV de Novembro - RJ e o passado colonial carioca
Lídia Nascimento Fateicha de Oliveira (UERJ)
O espaço hoje conhecido como Praça XV de Novembro - RJ abrigou o primeiro porto de chegada de pessoas
escravizadas na cidade durante o Brasil Colônia (1530-1822), sendo assim marcado por um passado de
violência escravista e de forte presença africana dentro do Rio de Janeiro. Tendo em consideração que poucos
são os trabalhos acadêmicos que exploram como a memória social coletiva vem sendo organizada e tratada no
local a partir dos monumentos e patrimônios materiais tombados ali, o presente artigo tem por objetivo
analisar e tensionar as narrativas de memória privilegiadas atualmente em sua paisagem. Para tal, foi
realizada uma pesquisa bibliográfica acerca da interface que se estabelece entre memória coletiva, espaço
urbano e patrimônio, bem como pesquisa documental acerca do espaço da Praça XV de Novembro. O trabalho
demonstra que este espaço foi marcado por dinâmicas importantes dentro do contexto do Brasil Colônia
(1530-1822) e do Brasil Império (1822-1889). Durante o Brasil Colônia (1530-1822), o espaço possuía uma
importância econômica e de violências escravistas. Já no período do Brasil Império (1822-1889), a Praça
tomou uma maior importância política, representando a presença da família real no Rio de Janeiro. Com a
proclamação da república em 15 de novembro de 1889, o local passou a ser chamado de Praça XV de Novembro,
abrigando desde então monumentos que remetem a figura militar e a coroa portuguesa com centralidade em sua
paisagem. Além disso, bens históricos que reforçam a figura do império português no local foram tombados
posteriormente como patrimônio, enquanto a forte presença africana no seu passado se manteve esquecida em
meio a esses processos de patrimonialização. A presença negra passou a ser representada ali, a partir de
movimentações políticas, por meio do monumento à João Cândido (almirante negro), presente no local até 2022.
Essa estátua ocupou uma posição secundária em meio a disposição espacial dos demais monumentos e foi
posteriormente removida, o que demonstra um quadro atual de disputa com relação à narrativa de memória
coletiva privilegiada ali. Desse modo, a pesquisa aponta que o espaço da Praça XV de Novembro possui um
passado de trauma social coletivo ligado a escravidão, que não vem sendo problematizado e nem ao menos
tensionado efetivamente no local. Os suportes de memória presentes ali reforçam em sua paisagem um ideal de
colonialidade, mantendo as memórias negras e os conflitos sociais silenciados a fim de transmitir uma imagem
harmoniosa da cidade.
© 2024 Anais da 34ª Reunião Brasileira de Antropologia - 34RBA
Associação Brasileira de Antropologia - ABA