ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 012: Antropologia das Emoções
A temporalidade das emoções no cotidiano pandêmico de estudantes de ensino médio
Sasha Cruz Alves Pereira (USP)
A partir de pesquisa de campo em uma escola pública da cidade de São Paulo durante a pandemia de Covid-19, sob o distanciamento social, até a volta às aulas presenciais e o aparente retorno à “normalidade de antes”, observei o modo como estudantes do ensino médio exprimiam suas emoções em relação a diferentes temporalidades, de maneira a reconfigurar as expectativas acerca do futuro e a reavaliar o presente ainda profundamente marcado pela experiência pandêmica. O campo foi construído a partir de conversas, no formato de reuniões online e presenciais, com a participação de alunas e alunos da referida instituição, no âmbito do Projeto Temático FAPESP “Vulnerabilidades de jovens às IST/HIV e à violência entre parceiros”, que promove formação em ciência e em prevenção em escolas públicas e ao qual o autor é pesquisador associado. As emoções elaboradas pelas e pelos jovens em relação às incertezas do momento, ao luto que atravessou a rede ampliada de sociabilidade, ao desprezo do governo Bolsonaro pelas mortes por Covid e pela demora na distribuição de vacinas no Sistema Único de Saúde e à falta de interação em copresença física marcaram o passado durante a pandemia com apatia e a impossibilidade de “sentir qualquer coisa”. Contudo, isso não significou estados extensos de paralisia social. Se em determinado momento da pandemia, o futuro deixou de ter qualquer contorno e/ou direção, o que foi subsumido na frase “os jovens deixaram de sonhar”, proferida por uma das estudantes durante o lockdown, também houve intensa reelaboração das expectativas e reposicionamentos tanto em relação ao futuro, como trajetória acadêmica e carreira, quanto ao próprio presente, na produção de uma linguagem que elaborasse as dores e os sofrimentos. Não houve um retorno à normalidade, ao “como era antes”, mas uma (re)construção de si e dos sentidos de ser jovem.