ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 012: Antropologia das Emoções
Raiva e revolta nos ritos funerários recortados da pandemia de Covid-19
Andreia Vicente da Silva (UNIOESTE)
As narrativas dos enlutados que perderam parentes durante a primeira fase da pandemia de Covid-19 no Brasil, estão repletas de expressões associadas à raiva, frustração e angústia. Esses interlocutores experienciaram aquilo que tenho denominado de “rituais funerários abreviados” - que foram resultado das medidas restritivas de biossegurança impostas pelo governo brasileiro a partir de março de 2020 para conter o avanço da doença no país e que contemplaram, entre outras diretrizes, o isolamento hospitalar dos infectados; a lacração dos cadáveres contaminados; e a proibição dos velórios. Naquele contexto, a supressão de fases e atores fez surgir uma experiência de morte recortada que ressoa em relatos de enlutados rememorando a impossibilidade de cuidar e proteger os doentes e de preparar e homenagear os mortos. Nesta comunicação, quero debater a forma como a “morte má” da pandemia e os cortes dos rituais afetaram essas experiências. Estou especialmente interessada ​​na interação entre raiva e revolta como forças afetivas que moldam o luto. Para exemplificar, analisarei o caso de Marcelo, evangélico, que perdeu a esposa Letícia, uma jovem de 23 anos sem comorbidades para a Covid-19 em Toledo, no Paraná. Revolta, raiva e tristeza pautaram nossa conversa, na qual ele rememorou a despedida final de seu “grande amor”. Neste caso em específico, é possível debater como o poder dos agentes de saúde em aplicar princípios aproximados à perspectiva da “morte moderna” se confrontou com as expectativas do enlutado gerando reações violentas. De maneira geral, argumento que a interrupção do fluxo do ritual, as inovações e invenções e as emoções relatadas apontam para a centralidade do aspecto relacional na avaliação do fracasso do rito. Afinal, se os rituais funerários funcionam como marcadores de identidade, quem somos nós que sobrevivemos às mortes da pandemia?