ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 081: Os limiares do corpo: a circulação de substâncias corporais e a produção de pessoas e relações
Os neurotransmissores e a substancialização da dor na fibromialgia: produzindo uma síndrome orgânica e identidades somáticas.
Ana Carolina Verdicchio Rodegher (UNICAMP)
A fibromialgia (FM) é uma síndrome com alta incidência em mulheres, que se caracteriza principalmente por dores musculoesqueléticas crônicas e por manifestações de fadiga, distúrbios do sono e alterações cognitivas e psiquiátricas. Parte das chamadas Síndromes Funcionais (SF), definidas pela ausência de lesão anatômica e pela falta de explicação causal dos seus sintomas e de seu aparecimento nos indivíduos, até hoje ela não obteve consenso quanto à sua etiologia (causa de seus sintomas). Pesquisas recentes realizadas através de neuroimagens, entretanto, indicam como a principal hipótese etiológica da síndrome uma desordem no processamento da dor como fator determinante para seu aparecimento e desenvolvimento. Esses estudos apontam o Sistema Nervoso Central (SNC) como a possível sede da afecção e sugerem a existência de disfunções nos neurotransmissores como a chave para compreensão da percepção exacerbada da dor em pessoas com fibromialgia. Nesta proposta de trabalho, pretendo analisar a hipótese da disfunção dos neurotransmissores como uma forma de substancialização da dor na fibromialgia, que passa a ser compreendida como um fenômeno predominantemente orgânico, a partir deste argumento. Em um plano mais geral, esta hipótese médico-científica corrobora com os variados repertórios discursivos e práticos que elegem o sistema nervoso e, em especial, o cérebro, como lócus privilegiado para compreender a constituição física, psíquica e sociocultural dos indivíduos. Informada por este debate, proponho refletir os neurotransmissores como uma substância que é, a um só tempo, produto e produtora de subjetividades, identidade, sujeitos e relações. No caso analisado, as pessoas com fibromialgia são produzidas (e produtoras) não só pela substância neurotransmissores”, mas pelos diferentes sentidos e efeitos que essa substância permite mobilizar no cotidiano. Destaco, por fim, o uso da hipótese da disfunção dos neurotransmissores como uma estratégia de legitimação da fibromialgia por parte das pacientes. Em um contexto de disputa pelo reconhecimento social de doenças que não apresentam lesão ou causa definida, tomar os neurotransmissores como a substância central que define a síndrome é um modo de materializar a sua existência como uma afecção somática e validar os corpos, vozes e identidades que carregam a dor consigo.