Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 091: Religiões afro-brasileiras e mobilizações afrorreligiosas: enfoques etnográficos e metodológicos contemporâneos
Representações de dor e sofrimento nas estratégias de preservação e resistência do território dos povos
de terreiro
Andréia Soares Pinto (Gingauff)
Este trabalho apresenta uma análise das relações conflituosas que se estabelecem entre os povos
tradicionais religiões de matriz africana e os diversos atores sociais e políticos, com foco nas estratégias
de instrumentos legais de disputa, acionados por essas comunidades tradicionais na resistência pela
preservação de seus territórios. Dados de um levantamento feito em publicações de jornais, blogs, revistas e
portais de notícias online, produzidos pelo grupo de pesquisa Ginga UFF, mostram o crescente interesse da
mídia sobre esta temática, ao mesmo tempo em que as mobilizações políticas e sociais dos povos de terreiro
se intensificam. Nas narrativas presentes nas publicações estão representações do terreiro como a
materialização de corpos, sentidos e coisas produzidas em comunidade de acordo com tradições e preceitos
culturais e religiosos. Assim como nas palavras de Roger Sansi (2013) ao falar sobre o processo de iniciação
no candomblé, onde afirma que o santo é construído, tornado real no templo e no corpo, o terreiro se
constitui em corpo material e sagrado. As considerações iniciais da pesquisa em andamento indicam que as
ameaças à permanência e existência de comunidades de terreiro em seus territórios não podem ser explicadas
pelo um movimento natural das cidades em consequência do desenvolvimento urbano. Estudos de Feitosa Neto e
Oliveira (2023) consideram que racismo religioso, neste contexto, é percebido a partir da participação ativa
de grupos religiosos evangélico-pentecostais e neopentecostais, inseridos e atuantes tanto as esferas da
administração pública, quanto dos grupos de domínio armado, com demonstram os trabalhos de Cristina Vital e
Ana Paula Miranda, cujo objetivo comum seria a eliminação dessas formas de organização social e religiosa de
tradições africana e afro-brasileira. A busca pelo reconhecimento desses territórios sagrados como
patrimônios imateriais e materiais demanda um conjunto de práticas, representações, expressões,
conhecimentos e técnicas, até então pouco acionado por povos de terreiro. Entender e descrever a relação
entre as pessoas e o terreiro, o sagrado e a sua materialidade, ajudam a contextualizar o campo de pesquisa
para trabalhar com as representações de dor e sofrimento diante das ameaças e ações contra comunidades
tradicionais de matriz africana.