Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 082: Para além do CEP/Conep: desafios e reflexões sobre ética na pesquisa antropológica
Dilemas nos destinos das nossas etnografias
Daniela Velásquez (UFF)
No ano de 2017, após alguns meses de encorajamento por parte dos meus interlocutores para encaminhar a
minha dissertação de mestrado sobre a comunidade do Quilombo do Grotão para o Instituto de Colonização e
Reforma Agrária (INCRA), finalmente entrei em contato com o homem encarregado do processo de titulação da
comunidade. A minha dissertação se colocava num lugar que, para a comunidade, era essencial no seu processo
de reconhecimento como comunidade remanescente de quilombo dentro do instrumento jurídico disposto no
artigo 68 do ADCT. O processo tomou alguns minutos entre o envio de um e-mail e uma ligação pelo telefone. A
ligação, embora curta, suscitou algumas problemáticas acerca do trabalho que me outorgou o titulo de mestre:
o encarregado do processo insinuou que pela sua natureza antropológica poderia entrar no lugar de um laudo
de identificação da comunidade. O principal sentimento estimulado nessa ocasião não foi necessariamente a
preocupação pelos limites do meu trabalho: tratava-se de algo entre curiosidade, estranhamento e revolta da
falta do entendimento da diferença entre um trabalho de caráter científico - que deriva na obtenção de um
título acadêmico- e a produção de um laudo de identificação requerido pelo INCRA que deriva na outorga de
direitos territoriais a uma comunidade remanescente de quilombo. A diferença de natureza entre essas duas
produções, bem como os limites entre elas em termos de confecção, envolvimento, treinamento e autonomia, sob
o meu olhar de mestre à época, aparecia abismal, como um funcionário do Estado poderia ter em mente que uma
poderia substituir a outra? Este questionamento arrastou consigo um conjunto de desdobramentos analíticos
associados à prática da antropologia na sua qualidade de disciplina científica bem como também no seu papel
fora deste contexto. O oficio da antropologia se desdobra da pesquisa, age em algumas ocasiões no âmbito das
lutas políticas e de movimentos sociais, produzindo uma forma de responsabilização. A qual se rege por um
compromisso estável e constante com o campo de pesquisa, com os nossos interlocutores por mais próximos ou
distantes que eles estejam das nossas experiencias pessoais. Busco refletir acerca da plasticidade e
elasticidade que se desenha nesta relação, na implicação das circunstâncias do nosso trabalho no
estabelecimento de diretrizes que orientem a profissão ao mesmo tempo em que lidamos constantemente com as
imposições da bioética principialista na regulação das pesquisas no interior das instituições universitárias
o lugar privilegiado do fazer antropologico e seu único espaço de regulação que ao mesmo tempo nos nega
constantemente a possibilidade de nos tornarmos trabalhadores no oficio da ciência.
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