Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 096: Sexualidade, gênero, raça e territorialidades: articulações, pertencimentos e direitos em disputa
O corpo asiático como território de guerra e temporalidade do trauma: raça, gênero e sexualidade na
construção do ativismo asiático-brasileiro
Laís Miwa Higa (USP)
Abordo a construção do ativismo asiático-brasileiro contemporâneo (2016-2023), desde o surgimento dos
três primeiros coletivos de antirracismo, feminismo e LBGTQIA+ asiáticos/amarelos no Facebook, sua expansão
para outras redes sociais, na mídia, e em espaços offline. Numa década marcada por enormes transformações e
crises, a análise etnográfica contextualiza e articula a trajetória do campo às marcas das Jornadas de Junho
(2013); do Impeachment da Presidente Dilma Rousseff (2016); da ascensão da extrema direita, com a eleição de
Jair Bolsonaro (2018); da Pandemia de Covid-19 (2020); e da eleição de Lula como Presidente (2022). O
objetivo principal é analisar as maneiras pelas quais coletivos e sujeitos asiáticos-brasileiros têm
produzido,significados e articulações entre marcadores sociais da diferença tais como raça, gênero e
sexualidade , na produção de práticas políticas e modos de subjetivação. Parto de minha pesquisa de
doutoramento em torno da criação dos primeiros coletivos asiáticos no Facebook e na internet, enquadrada na
eclosão dos novos movimentos sociais e do ciberativismo, como local de encontro e construção política e
subjetiva de jovens, em contraposição às gerações mais velhas, com representantes conservadores que ocupam
as associações étnicas e partidos de direita. Investigo a produção de categorias de identidades
asiáticas-brasileiras politizadas e de sujeitos políticos asiático-brasileiros, dando destaque a importância
e a valorização atribuídas a pesquisas e a estudos acadêmicos nos debates e embates em torno das categorias
étnico-raciais, conceitos e perspectivas teórico-políticas que são constantemente utilizados para
fundamentar discursos e práticas do movimento. Por fim, ao perscrutar o mito do Perigo Amarelo e o mito da
Minoria Modelo, de maneira a aprofundar os modos pelos quais essa juventude mobiliza memórias e histórias
das diásporas, invocando especialmente eventos de guerra, privação e injustiça sofridas por imigrantes e
descendentes nos países de origem e no Brasil. Exemplos e análises de pesquisas acadêmicas permitem, por um
lado, a recontextualização e a ressignificação das próprias experiências vividas de microagressões,
xenofobia, racismo e discriminação. Por outro, contribuem para fundamentação de críticas e análises que
fomentam a formação política e o incentivo à atuação em movimentos sociais, coletivos e organizações. Por
fim, mobilizo as noções de assombrações de diásporas asiáticas e traumas transgeracionais de Grace Cho junto
a ideia de conhecimento venenoso, de Veena Das, para destacar visibilidades opacas e as formas em que as
escolhas por certas categorias identitárias e por certas histórias revelam outras camadas de hierarquias e
desigualdades nas comunidades e ativismos asiáticos.