Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 085: Pesquisas sobre infâncias a partir das cosmologias tradicionais
A produção de infâncias no encontro com as crianças kaingang
Michele da Rocha Cervo (UNICENTRO), Danieli Finhgre Felix (UNICENTRO)
A pandemia evidenciou todas as desigualdades sociais que estruturam o Brasil e produzem formas de
subjetivação da população. A discussão aqui apresentada fez parte da pesquisa Modos de ser criança na
Pandemia por COVID-19: a produção de infâncias no encontro com os territórios. Tratou-se de uma pesquisa
qualitativa, utilizando-se como referência a pesquisa-intervenção que buscou narrar as experiências de
crianças indígenas da etnia Kaingang durante a pandemia, a partir da narrativa e vivência de uma psicóloga
indígena em formação e sua circulação em diferentes territórios. O trabalho problematiza também os
deslocamentos e encontros entre a estudante de psicologia indígena e sua orientadora branca. A produção de
uma pesquisa que se localiza no campo das infâncias indígenas e que encontra um modo de produção dentro das
Psicologias já traria um questionamento e campo de análise necessário para o século XXI. O que dizer sobre
os modos de ser criança atravessados pela pandemia? E de que crianças estamos falando? E quando pensamos em
crianças-indígenas e os efeitos da pandemia, o que encontramos? Essa pesquisa se fez através do encontro e
da experiência de circulação pelas terras indígenas, como criança indígena Kaingang que a estudante foi e
pelos encontros com as crianças de hoje que vivem nessas terras; pela experiência de escutar outras crianças
indígenas na Casa de Passagem Indígena localizada em Irati/PR; pela escuta das crianças e mães que pudemos
acompanhar nos espaços de luta e movimentos sociais dos povos indígenas. Foram consideradas para a análise
as publicações e estudos sobre a temática; as observações e vivências registradas nos diários de campo a
partir do estágio na Casa de Passagem Indígena, da participação nos Movimentos Indígenas, das conversas e
interações com as crianças indígenas na Terra Indígena, oficinas e a produção de cartilhas informativas
traduzidas nas línguas kaingang. Essas vivências e experiências compuseram narrativas que se desdobraram em
duas linhas de análise: as diferenças geracionais e temporais e não nos tratam bem: sobre ser criança e
viver na cidade. Ouvir os relatos das crianças indígenas, bem como as discussões sobre os direitos humanos
dos povos indígenas afetam diretamente o modo como se produzem. As pesquisas são uma forma de devolutiva
para as crianças indígenas, como aposta ética e política de ressignificação do papel delas na sociedade. E
também, provocar os leitores a se deslocar da sua zona de conforto, e refletir sobre essas infâncias com um
futuro incerto, produzindo pesquisas que respeitem a epistemologia de cada povo Indígena.
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