Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 068: Liderança: estilos, modos, formas, problemas e exemplos entre camponeses, quilombolas e povos tradicionais
"O meu corpo é o meu quilombo": os fluxos de saída e de retorno para o território e a comprovação étnica de quilombolas da Ilha da Marambaia - RJ
Fabiana Helena da Silva (UFRRJ)
Este trabalho foi desenvolvido a partir de pesquisa etnográfica em curso, na Ilha da Marambaia/RJ, local
que abriga a Comunidade Remanescente de Quilombolas e uma Base Militar da Marinha. Além do acompanhamento do
cotidiano, foram consultados documentos presentes nos acervos do quilombo e neste contexto, as teorias de
Estado propostas por Veena Das (2008) têm sido fundamentais para pensar estas dinâmicas, em especial, o
quanto documentos escritos atuam na organização da vida diária. Neste recorte, apresento questões
relacionadas à comprovação da identidade étnica quilombola, assunto muito presente no cotidiano da
comunidade. Comprovação esta, fundamental para aquisição de direitos, como o Auxílio Permanência do Governo
Federal para estudantes de Instituições Federais de nível superior, assim como para ter acesso à cotas e
benefícios relacionados a projetos de empresas ou ONGs, oportunidades de trabalho específico para grupos
étnicos quilombolas e estágios. Para isto, a diretoria da comunidade emite declaração na qual a etnicidade
quilombola é afirmada, através da assinatura de três lideranças, ressaltando o pertencimento à comunidade,
manutenção de laços familiares, econômicos e socioculturais. Nesta trajetória etnográfica dentro da
comunidade, tenho acompanhado o quanto a emissão de comprovação da identidade, está de forma inegociável,
relacionada à morada no espaço físico território quilombola. No passado recente da comunidade, famílias
foram expulsas pela Marinha e impossibilitadas de voltar a morar na ilha. Em épocas anteriores, algumas
saíram de forma voluntária, em busca de escolarização e trabalho. Além disso, por conta da baixa mobilidade
e falta de recursos, muitas estabeleceram moradia fixa no continente. Busco apresentar neste trabalho
reflexões sobre este estar para ser e sobre os fluxos de saída e retorno destas pessoas para a ilha.
Desenvolvo essa reflexão a partir de algumas histórias de ilhéus e seus familiares do continente. O objetivo
desta pesquisa é promover uma reflexão sobre as especificidades deste quilombo como um território que possui
fluidez e, ao mesmo tempo, um severo controle mediado pelo Estado. Para tal, proponho uma análise dos
argumentos relacionados às saídas voluntárias e compulsórias, tendo por base depoimentos e pesquisa
documental, buscando dar enfoque especialmente à dinâmica documento-território em atestar a identidade
quilombola, sem deixar de fora conflitos, conquistas, perdas, projetos e sonhos. Por fim, refletir sobre as
dimensões simbólicas propostas por Beatriz do Nascimento (Ratts, 2006), que contraria o pensamento ocidental
vigente, sobre ser onde está, corpo-território ou corpo como o próprio território de pertença.