ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 034: Casas, cozinhas, quintais e suas agências em coletivos quilombolas, sertanejos, pescadores, indígenas e camponeses
Plantando nas ruínas: práticas de ressurgência mobilizadas pelo coletivo Mulheres do Grupo de Agricultura Urbana na periferia de São Paulo (Zona Leste)
Júlia Kaori Miai Tomimura (USP), José Miguel Nieto Olivar (USP)
A cidade de São Paulo é o maior centro urbano do Brasil, sendo historicamente um pólo de concentração de poder que estabelece dinâmicas econômicas e políticas no país. A cidade mostra-se cada vez mais insustentável em termos socioambientais, principalmente em grupos alvo de violência sistêmica, como pessoas negras, indígenas e migrantes nas periferias. No meio deste cenário brotam coletivos por toda a cidade que mobilizam práticas em agricultura urbana. Resistindo à lógica de plantation, produzem vida em meio ao domínio do agronegócio e do concreto. Na zona leste destacam-se agricultoras(es) que cultivam em terrenos degradados, como as Mulheres do Grupo de Agricultura Urbana (GAU) que transformaram um local antes usado para descarte de entulho de material de construção em uma grande horta agroecológica. Este trabalho pretende apresentar primeiras reflexões do trabalho de campo, focando nos saberes e práticas mobilizados pelo coletivo Mulheres do GAU na produção de alimentos enquanto cuidado para cultivar habitabilidade na cidade. O trabalho reúne coleta de dados bibliográficos e reflexões de campo etnográfico em andamento no 1° semestre de 2024. Buscou-se acompanhar o cotidiano do coletivo e prestar atenção a outros seres que habitam a horta. As Mulheres do GAU cultivam alimentos, vendem para a comunidade, escolas e ONGs, realizam coffee breaks e oficinas de educação ambiental. O trabalho na horta é fundamental para a manutenção do cotidiano delas e de seus familiares, além de fortalecer a saúde biopsicossocial das integrantes e a rede mais-que-humana local. “E nós? Nós também não somos natureza?”: esta foi uma inquietação suscitada por uma das integrantes do coletivo quando conversávamos sobre o anseio em estudar a questão ambiental interseccionando raça e gênero em mina pesquisa. Conectando o território periférico e o início da ocupação na horta, criticou a comum separação pretensiosa realizada dentro de discussões ditas ecológicas, que negligenciam comunidades humanas pobres, racializadas, periféricas. Quando um enorme teiú foi jogado na horta anonimamente, abrem-se perguntas: por que lá foi o local escolhido para deixar o animal? A horta brincaria com categorias dadas como opostas, sendo um misto de urbano, natural e rural? Como este refúgio mais-que-humano impacta na comunidade? As Mulheres do GAU recuperaram não somente o solo, mas uma ressurgência multiespécie, também integrando a paisagem e instigando discussões e imaginários. Desafiando o sistema de plantation, elas plantam comida orgânica nas ruínas da cidade mais urbanizada do país: uma ação comunitária de resistência e criatividade que torna o cotidiano habitável, a cidade “respirável” e o território “comestível” diante da atual catástrofe humanitária e ambiental.