ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 092: Retomadas, tessituras e insurgência no fazer antropológico e outros fazeres.
E como você se sente sobre isso? - A escrita emocional de si, no percurso de pesquisa sobre branquitude.
Maria Beatriz Barmaimon Garcia (UNILA)
Sinto um enjoo ao escrever o que se segue e isso me parece um bom começo. Esse enjoo se relaciona com um conjunto de emoções surgidas de um compromisso político e afetivo assumido por mim: o de estudar a branquitude, sendo uma pessoa branca. Dessa forma, proponho, no presente resumo, elaborar as emoções produtoras e produzidas durante um processo de pesquisa que vincula os Estudos da Branquitude à Educação para as Relações Étnico Raciais. Charles Mills em O contrato racial aponta para a existência de um contrato epistemológico, uma epistemologia da ignorância incluído no próprio contrato racial (MILLS, 2023, p.126), no que concerne à branquitude, como estrutura de poder. Isso significa dizer que os signatários do contrato racial concordam em interpretar erroneamente o mundo”, se mantendo blindados e anestesiados à realidade das desigualdades raciais e suas consequências devastadoras (MILLS, 2023, p.42). Aqui é possível reconhecer um primeiro grupo de emoções, relacionadas ao pertencimento, à satisfação de acreditar que tudo a sua volta faz sentido e que as coisas são como devem ser. Esse grupo de emoções também pode ser vinculado ao que vou chamar de aprender a ser branco”, que nada mais é do que a transferência geracional e interfamiliar de um conjunto de comportamentos e interpretações específicas da branquitude, que moldam a maneira como me movo pelo mundo, meus objetivos e expectativas, o que busco na vida e o que espero encontrar" (DIANGELO, 2016, p.159, tradução nossa). Nesse sentido, a tarefa de recusa ao contrato racial, por pessoas brancas, é uma escolha real [...] embora seja reconhecidamente uma escolha difícil (MILLS, 2023, p.136), afinal ela vai de encontro a tudo aquilo que se aprendeu. Escolho, neste trabalho, a escrita de si como um tipo de registro terapêutico e relativamente etnográfico de, [re]elaboração dos discursos recebidos e reconhecidos como verdadeiros em princípios racionais de ação (KLINGER, 2012, p. 23), com o objetivo de ser o mais verdadeira possível com minhas limitações para que elas sejam corretamente endereçadas e resolvidas, a fim de caminhar em direção à uma crítica justa e atenta das armadilhas impostas pelo que podemos chamar de lei da inércia branca”. Assim, a relação de mecanismos de defesa do ego [...] negação; culpa; vergonha; reconhecimento; reparação”, experimentados pelos brancos ao se confrontarem com a realidade do contrato racial, se torna também lista das emoções vividas pelos mesmos (KILOMBA, 2020, p.29). Minha experiência é que tais emoções surgem desordenadas; todas juntas ou separadas, e que o maior exercício é o de acolhê-las sem sucumbir a elas, legitimá-las sem se vitimizar, lembrando sempre que o cuidado de si se realiza [também] no cuidado do outro (CARNEIRO, 2023, p.311).