ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 074: Modos de aprender e de ensinar a antropologia: desafios contemporâneos da formação e da escrita em antropologia
Pensando autoria/autoridade etnográfica negra: apontamentos sobre raça/racismo e escrita antropológica
Gleidson Wirllen Bezerra Gomes (UFPA)
A proposta de reflexão desenvolvida neste artigo deriva da experiência de escrita da minha tese de doutorado em Antropologia, defendida em 2023. A escrita etnográfica em si já gerou amplo debate no campo antropológico quanto às características específicas da etnografia enquanto texto (GEERTZ, 2018; CLIFFORD; MARCUS, 2016; STRATHERN, 2017), entretanto, ao longo da minha formação e, mais especificamente, no segundo campo (STRATHERN, 2017, p. 312) da textualização da tese, em meio às dificuldades, dúvidas e tensões mentais/emocionais geradas no processo de escrita, cada vez mais me questionava o quanto desses tensionamentos entendidos a princípio como internos/pessoais tinha a ver com a questão racial. Isto é, quanto mais eu mergulhava no estar aqui (GEERTZ, 2018, p. 160), mais eu pensava no que ser um homem negro, em uma sociedade racista como a brasileira e a belenense, poderia implicar na hora de enfrentar a página (GEERTZ, 2018, p. 21). A partir dessas reflexões iniciais, algumas questões podem ser elaboradas: o que o fato de ser negro implica na hora de escrever uma etnografia? O que raça pode ter a ver com escrita etnográfica? Ou, posta de outro modo: como o racismo pode marcar/formar a subjetividade de um antropólogo negro e como isso possivelmente reverberar na textualização (CARDOSO DE OLIVEIRA, 2006) da etnografia? Ao formular essas questões, penso que elas podem ser entendidas como uma das consequências de uma maior presença de pessoas negras nos cursos de graduação das universidades, especificamente no âmbito das Ciências Sociais. Entre outros fatores, o maior acesso ao ensino superior gerou questionamentos e disputas sobre a construção do currículo de formação dos discentes, invariavelmente fundamentado no pensamento de autoras e autores brancos e, em muitos casos, estrangeiros: A chegada de um número cada vez maior de pessoas negras e indígenas ao ensino superior impulsionou uma série de iniciativas nesse sentido, dando origem a pesquisas e publicações protagonizadas por sujeitos que antes se viam reduzidos à condição de objetos científicos (BASQUES, 2022, p. 03). No pensamento socioantropológico brasileiro já existe um debate estabelecido sobre as implicações raciais na pesquisa de campo (MEDEIROS, 2017; DOMINGUES, 2018; RODRIGUES JÚNIOR, 2019; PEREIRA, 2020; CASTRO, 2022; PEREIRA; SIQUEIRA, 2022). Este artigo, assim, com as questões que o instigam, propõe-se a articular um debate sobre a possibilidade de pensar uma autoria/autoridade etnográfica negra na Antropologia, refletindo sobre os possíveis impactos da questão racial no processo de escrita das etnografias feitas por pessoas negras.