ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 085: Pesquisas sobre infâncias a partir das cosmologias tradicionais
Entre infâncias possíveis, ser pequena/o hoasqueira/o: presença e participação das crianças em um núcleo da União do Vegetal
Ivana Silva Bastos Peregrino (UFPB)
Mestre Gabriel, que deu origem a União do Vegetal (UDV), preparou o chá – bebida psicoativa ingerida em rituais religiosos nas chamadas religiões hoasqueiras/ayahuasqueiras – pela primeira vez em sua casa. Colheu mariri e chacrona na floresta e voltou para casa com as folhas e o cipó em mãos, avisando a esposa que ia preparar o vegetal. Com o auxílio dela e de um dos filhos – Jair (9 anos), preparou o chá e beberam ele, Pequenina – sua esposa – e os dois filhos mais velhos, Getúlio (11 anos) e Jair. Nota-se, então, a presença das crianças preparando e comungando o vegetal desde o princípio da UDV e a importância histórica e participativa desse momento. Assim como fazia com seus discípulos, Mestre Gabriel – exemplo maior a ser seguido pelos adeptos da UDV – conversava, aconselhava e orientava as crianças, respeitando sua forma de se comunicar e usando maneiras lúdicas para isso. No entanto, apesar da relevância histórica, é possível afirmar que as crianças da UDV são consideradas hoasqueiras? Pretende-se aqui entender como é a presença das crianças, suas vivências e relevância no cenário religioso do Núcleo Conselheiro Salomão Gabriel, localizado em João Pessoa/PB. Para isso, foi realizada uma etnografia que mostrou que a União do Vegetal é uma religião espírita em que a criança, como qualquer outro indivíduo, é vista como um espírito em evolução e tem um trabalho espiritual a ser desenvolvido enquanto encarnado”. Por esse mesmo motivo a instituição defende o direito de a criança beber o vegetal, já que a União tem como objetivo trabalhar pela evolução do ser humano”. Com o crescimento da UDV e, consequentemente, com o fortalecimento de uma percepção mais institucionalizada, parece ter havido a necessidade de algumas mudanças e uma maior restrição na participação infantil. Então, foram colocados alguns limites como a quantidade de sessões que a criança pode participar, por exemplo. Após essa institucionalização e as mudanças que com ela vieram, vigora atualmente na União uma concepção de criança que parece estar em sintonia com a concepção predominante na sociedade, a da infância ocidental moderna. Tal condição coloca a criança como dependente e incapaz de tomar decisões ou ter uma participação mais ativa nas decisões. Apesar disso, as observações de campo também constatam que as crianças são consideradas importantes em sua condição atual neste espaço religioso, ainda que persista, para alguns, a ideia do vir a ser”, pois também ouvi in loco dizeres ressaltando que as crianças darão seguimento à religião. Empiricamente, foram vistas crianças frequentando a União do Vegetal, ocupando o espaço religioso – participando dos rituais e bebendo o chá – de forma marcante e sempre presentes na rotina do núcleo.