Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 085: Pesquisas sobre infâncias a partir das cosmologias tradicionais
Entre infâncias possíveis, ser pequena/o hoasqueira/o: presença e participação das crianças em um núcleo
da União do Vegetal
Ivana Silva Bastos Peregrino (UFPB)
Mestre Gabriel, que deu origem a União do Vegetal (UDV), preparou o chá bebida psicoativa ingerida em
rituais religiosos nas chamadas religiões hoasqueiras/ayahuasqueiras pela primeira vez em sua casa. Colheu
mariri e chacrona na floresta e voltou para casa com as folhas e o cipó em mãos, avisando a esposa que ia
preparar o vegetal. Com o auxílio dela e de um dos filhos Jair (9 anos), preparou o chá e beberam ele,
Pequenina sua esposa e os dois filhos mais velhos, Getúlio (11 anos) e Jair. Nota-se, então, a presença
das crianças preparando e comungando o vegetal desde o princípio da UDV e a importância histórica e
participativa desse momento. Assim como fazia com seus discípulos, Mestre Gabriel exemplo maior a ser
seguido pelos adeptos da UDV conversava, aconselhava e orientava as crianças, respeitando sua forma de se
comunicar e usando maneiras lúdicas para isso. No entanto, apesar da relevância histórica, é possível
afirmar que as crianças da UDV são consideradas hoasqueiras? Pretende-se aqui entender como é a presença das
crianças, suas vivências e relevância no cenário religioso do Núcleo Conselheiro Salomão Gabriel, localizado
em João Pessoa/PB. Para isso, foi realizada uma etnografia que mostrou que a União do Vegetal é uma religião
espírita em que a criança, como qualquer outro indivíduo, é vista como um espírito em evolução e tem um
trabalho espiritual a ser desenvolvido enquanto encarnado. Por esse mesmo motivo a instituição defende o
direito de a criança beber o vegetal, já que a União tem como objetivo trabalhar pela evolução do ser
humano. Com o crescimento da UDV e, consequentemente, com o fortalecimento de uma percepção mais
institucionalizada, parece ter havido a necessidade de algumas mudanças e uma maior restrição na
participação infantil. Então, foram colocados alguns limites como a quantidade de sessões que a criança pode
participar, por exemplo. Após essa institucionalização e as mudanças que com ela vieram, vigora atualmente
na União uma concepção de criança que parece estar em sintonia com a concepção predominante na sociedade, a
da infância ocidental moderna. Tal condição coloca a criança como dependente e incapaz de tomar decisões ou
ter uma participação mais ativa nas decisões. Apesar disso, as observações de campo também constatam que as
crianças são consideradas importantes em sua condição atual neste espaço religioso, ainda que persista, para
alguns, a ideia do vir a ser, pois também ouvi in loco dizeres ressaltando que as crianças darão seguimento
à religião. Empiricamente, foram vistas crianças frequentando a União do Vegetal, ocupando o espaço
religioso participando dos rituais e bebendo o chá de forma marcante e sempre presentes na rotina do
núcleo.