Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 079: O visível e o in(di)visível: ciências, conhecimentos e produções de mundos.
O recrutamento na pesquisa sobre o Zika em Recife/PE: Quando pesquisados e pesquisadores se encontram
Mariana Esteves Petruceli (UNB)
A epidemia de Zika na Região Metropolitana de Recife (RMR), que ocorreu entre 2015 e 2017, afetou
majoritariamente famílias de baixa renda, negras e pardas, com baixa escolaridade e moradoras de bairros já
negligenciados pelo Estado. À época, a resposta científica foi formulada a partir do encontro da classe
científica com essa parcela da população a partir de mutirões de saúde, pesquisas clínicas e acompanhamento
periódico em projetos que mesclavam a assistência clínica e a pesquisa científica.
A produção científica possui ritmos e necessidades que, muitas vezes, não acompanham as demandas das
populações beneficiadas. Tal questão se faz presente na vasta produção antropológica sobre a experiência de
famílias afetadas pelo Zika Vírus e suas intercorrências (Valim, 2017; Carneiro; Fleischer, 2018; Alves,
2020), bem como as demandas organizadas pelas associações (Scott, 2018). De acordo com pesquisas com as
famílias afetadas, muitas destas se queixaram da falta de retornos por parte dos cientistas, bem como pelo
assédio científico sofrido, e optaram por não participar de demais projetos de pesquisa.
O recrutamento de sujeitos se tornou um tema recorrente durante minhas entrevistas com profissionais da
saúde e pesquisadores durante minha incursão etnográfica à Região Metropolitana de Recife (RMR) em maio de
2022. Demonstrando que a dificuldade em engajar os sujeitos de pesquisa não apenas dificultava o andamento
dos empreendimentos de pesquisa em si, mas também da formulação de uma resposta científica à epidemia
vigente.
Desse modo, esse trabalho tem como objetivo apresentar a questão do recrutamento de sujeitos de pesquisa no
contexto da pesquisa sobre o Zika em Recife/PE a partir da perspectiva dos cientistas. Apoiada nos escritos
da Crítica Feminista à Ciência e Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, pretendo discutir sobre os embates
entre pesquisadores e pesquisados, tal como abordado por Steven Epstein (2008) e demais autores da área,
apresentando os recursos acionados e as dificuldades enfrentadas neste processo.
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