Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 044: Dialéticas da plantations e da contraplantation: expropriação, recusa e fuga
“Cinquenta por cento a bruxa, cinquenta por cento a nossa organização” ou algumas histórias da aliança de pragas contra a Plantation
Mariana Cruz de Almeida Lima (UNICAMP)
A proliferação da vassoura de bruxa, doença causada pelo fungo Crinipellis perniciosa, atingiu roças de cacau do sul da Bahia e selou a crise de seu sistema agroexportador. Nesta mesma época, movimentos camponeses fizeram proliferar “a praga dos Sem Terra”, afetando sobremaneira a estrutura fundiária da região, que tornou-se importante mancha de Reforma Agrária já no início dos anos 2000. Embora a agência da “bruxa” seja considerada fundamental entre as pessoas que assentaram-se ali, a “organização do povo Sem Terra” emerge como outro fator determinante na luta contra a plantation cacaueira. O que a emergência destas pragas pode contar sobre o modo de produção do fruto que sustentou a economia baiana ao longo de quase todo século XX? Como a atenção ao protagonismo compartilhado entre “bruxa” e “Sem Terras” tensiona categorias que proliferam em estudos sobre o entrelaçamento entre humanos e não humanos em paisagens arruinadas? A presente proposta integra pesquisa etnográfica em andamento, realizada junto a habitantes do Assentamento Terra Vista – município de Arataca, Bahia. Busco mapear algumas inflexões históricas da região, explicitando a conjuntura do processo de ocupação da terra e o modo como a questão fundiária vem sendo transformada em sincronia com o refazer de paisagens a partir da aliança entre “organização Sem Terra” e vidas outras que humanas. Focalizo especialmente os agenciamentos que faz tal aliança ser pensada como uma entre entes circunscritos na mesma categoria - “praga”. Com isso, avanço a hipótese de que, porquanto Sem Terras e “bruxa” compartilhem da capacidade de escapar do controle inerente ao regime da plantation, a chave da “praga” também pode expressar uma equivalência incômoda – sua “condição menos-que-humana”.
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