ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 080: Ontologia e Linguagem: línguas indígenas, artes verbais e retomadas linguísticas
O canto da aranha e o conto do urubu-rei
Hugo Prudente da Silva Pedreira (Iepé)
“Para o estrangeiro vindo da face da terra ‘Eu’, disse ela talvez, ‘quero te trazer para cá, tal e qual’. Com este seu pensamento diverso ela lhe respondeu. Ela, que falava a Aquele Que Foi Levado Por Ruwu Hy. E a fala do estrangeiro vindo da face da terra, já diante de Ruwu Ramuj - a sua fala em resposta depois que já havia ido - a sua fala em resposta, no peito-pensamento de Ruwu Ramuj, não se revelava diversa, apartada, diversa soava. Eu disse há tempos”. Esta é uma tradução de trabalho para um canto performado por Tajuje em 2017, transcrito na língua Zo’é em abril de 2022 com ajuda dos também jovens Supi e Tekaru. Para a transcrição, Tajuje recitou lentamente, do modo como os Zo’é costumam fazer para ensinar um novo canto durante uma festa. Vem desta forma salmodiada a divisão proposta em linhas. Ao encerrar, Tajuje refere aquela primeira gravação: “Eu disse há tempos”. Insere, assim, sua própria posição enunciativa em um texto já bastante pontuado por mudanças no sujeito da fala. O canto reporta um diálogo, ou dois diálogos, ou a falta de diálogo entre três personagens. A cena se passa no patamar celeste, a aranha fala para o homem em segredo, pois quer protegê-lo de Ruwu Ramuj, urubu-rei tirano que o mantêm cativo. Ele escuta a fala da aranha e aceita sua ajuda. Em seguida, apresenta-se sozinho diante de seu sogro urubu e o engana: não revela a ajuda que recebeu. O canto evoca a cena e seu desentendimento para ouvintes que sabem das intenções em jogo. Bem ou mal, todos conhecem a longa história do homem que foi tirado de sua tocaia e levado aos céus pelos urubus, contada por narradores mais velhos e autorizados. Partindo de performances de Kwa’i e Tebo, podemos explorar o desenho desta narrativa, suas marcações internas e uma clara divisão em episódios. Esta divisão é fundamental para entendermos a relação entre o conto e o canto. Este é uma cena daquele. Na verdade, um relance de uma cena: o nexo que a resume. Embora restrito a um incidente, a sua forma truncada, desentendida, informa e organiza toda a narrativa. Isso não esgota os modos como o urubu-rei pode figurar nos cantos Zo’é. Reportado por Tekaru, o Finado Awati canta sua hesitação em aceitar a bebida fermentada sepy oferecida pelas mulheres na festa: ele é como o urubu-rei que não baixa logo ao chão onde jaz a carne podre. Inspirado no caráter desconfiado deste animal, o canto descreve o movimento inquieto de suas asas quando a ave deseja partir, escapando do caçador de tocaia. Este ponto de observação, a tocaia, também foi a escolha de Supi em certo conjunto de páginas de seu diário pessoal, compartilhado em 2020. Ele narra a longa e frustrante espera pela descida em bando dos urubus para obter suas valiosas penas, enquanto avalia com agudeza o seu comportamento.