Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 031: Artes e crafts: composições, técnicas e trajetos criadores
Relatos artísticos-antropológicos com o barro preto de Goiás
Ralyanara Moreira Freire (Ciranda da Arte/Seduc-GO)
O barro preto é tradicionalmente modelado pelas paneleiras do quilombo urbano Alto Santana, em Goiás (GO), cidade reconhecida, em 2001, pela UNESCO, como Patrimônio Cultural da Humanidade. As peças de cerâmica terracota são queimadas em fornos tradicionais, feitos também de barro. A lenha, oriunda de restos de construção e de árvores do Cerrado goiano, é capaz de gerar calor de 900º a 1.200º, temperatura esta suficiente para transformar o barro preto em cerâmica vermelha. A construção e manuseio do forno tradicional, bem como o controle do fogo são tarefas árduas conduzidas, sobretudo, por mulheres negras do quilombo, detentoras do saber-fazer na cidade. Desde 2021, dona Xica, mestra amplamente reconhecida em Goiás, vem me ensinando essas tarefas e me escolhendo como uma de suas aprendizes do ofício de ser paneleira. A priori, nesta proposta de comunicação, eu busco discorrer e refletir sobre as experimentações etnográficas e processos criativos que eu venho realizando com a cerâmica e a sua principal matéria orgânica. Assim, amparada pelos ensinamentos do barro e de dona Xica, discorro sobre conceitos de campo como a “ciência do barro”, o “tempo do forno”, o “cheiro de panela queimada”, o “amassar o barro”, o “alisar o barro” e outros. Também trago uma descrição visual que focaliza as etapas de construção das panelas de barro e técnicas de modelagem e escultura desenvolvidas por dona Xica bem como os materiais utilizados no ateliê/oficina como a espiga de milho, o pedaço de couro, e a ponta da chinela. Neste momento inicial da pesquisa, me interessa investigar as possibilidades inventivas a partir do barro e com pessoas detentoras do “pensar-saber-fazer” que, cotidianamente, modelam narrativas futuristas com vistas a um caminho ancestral. Fazendo uma relação com pesquisas anteriores de mestrado e de doutorado, sobre a materialidade têxtil e os bordados políticos, eu sigo criando conexões entre os ofícios do saber ancorados em técnicas tradicionais, tecnologias ancestrais, territorialidades, materialidades, processos criativos e mulheres plurais.