ISBN: 978-65-87289-36-6 | Redes sociais da ABA:
Apresentação Oral em Grupo de Trabalho
GT 060: Experimentos de Ontologia: formas de mundialização desiguais e etnografia como atuar criativo.
Disputar a Saúde, refazer o Público: aprendizados e desafios do projeto Cosmopolíticas do Cuidado no fim-do-mundo.
José Miguel Nieto Olivar (USP)
Esta apresentação conecta a discussão sobre política ontológica com o campo da saúde coletiva no Brasil. O campo da saúde e as disputas entorno do cuidado compõem de forma ativa processos vigentes de mundialização desigual”. Ao extrativismo dominante se articulam processos intensos de adoecimentos e expulsões, bem como os aplainamentos ontológicos próprios da velha biopolítica. O projeto-rede Cosmopolíticas do Cuidado no fim-do-mundo: gênero, fronteiras e agenciamentos pluri-epistêmicos com a saúde pública, produz informação sobre coletivos sociais que sempre ocuparam posições de necessitados em saúde, de vulnerabilizados e carentes, para evidenciar como sustentam saberes e mundos capazes de disputar o Mundo, de contra-domesticar o Estado, e de colocar em ação formas interessantes -e conflitivas-, de cuidado e saúde. O projeto baseia-se em relações de aliança com trabalhadoras sexuais, mulheres indígenas amazônicas, mulheres vítimas do sistema prisional, travestis em regiões de fronteira e agricultoras urbanas pobres que plantam nas ruínas”. O trabalho etnográfico com estes coletivos mostra as distâncias, equivocações e trânsitos político-ontológicos entre o que pode ou não pode ser humano, humanizado ou humanizável, o que deve ou não caber no Mundo, na Saúde, no Saber; o que pode ou deve ser cuidado, as presenças e relações que compõem os mundos, corpos e territórios. Começamos a evidenciar também alianças, confluências e distâncias transversais entre estes coletivos e destes com o campo da saúde. Por outro lado, evidenciamos como os campos acadêmicos da saúde coletiva e da antropologia são interpelados por demandas de maior justiça epistêmico-ontológica a partir da presença de coletivos antirracistas, contra-coloniais, transfeministas, etc.. Percebemos a necessidade de reflorestar os repertórios teórico-metodológicos da antropologia. Apresentamos desafios metodológicos (teóricos, éticos e políticos) para a etnografia, buscando novas proposições e revisitando importantes proposições latino-americanas (Freire, Fals Borda e outres). Este repertório emergente ajuda a situar disputas e tensões no campo da saúde na linha de conflitos político-ontológicos descritos no Brasil e em outros contextos latino- americanos. Ele nos mostra como, a pesar de seu compromisso com os direitos humanos, de toda sua tradição democrática e progressista, de todas as aberturas à participação social e à humanização, o campo da saúde coletiva/pública tem ainda em aberto o desafio de levar a serio outros modelos de cuidado, a possibilidade da pluriversalidade, a exuberância onto-epistêmica das suas margens externas, os limites do excepcionalismo humano, entre outras coisas.